Demissões por IA são reais ou apenas "AI-washing"? O que dizem os especialistas

Entenda o que é real e o que é uma estratégia das empresas na hora de divulgar como causa das demissões o uso de inteligência artificial

Nos últimos meses, um fenômeno curioso tem chamado a atenção no mercado corporativo: empresas de diversos setores anunciando demissões em massa e atribuindo esses cortes à implementação de inteligência artificial. Mas será que a IA realmente é a culpada ou estamos diante de um caso clássico de "AI-washing"?

O fenômeno das demissões atribuídas à inteligência artificial

Segundo dados da consultoria Challenger, Gray & Christmas, mais de 50 mil demissões foram justificadas por motivos relacionados à IA apenas em 2025. Números impressionantes que levantam uma questão importante: essas empresas realmente estão substituindo trabalhadores por sistemas de inteligência artificial ou estão usando a tecnologia como justificativa conveniente para cortes motivados por outras razões?

Grandes corporações têm adotado esse discurso. A Amazon, por exemplo, anunciou o corte de 16 mil vagas corporativas em 2026, somando-se às 14 mil eliminadas no segundo semestre de 2025. Em comunicado de junho, o CEO Andrew Jassy afirmou: "À medida que lançarmos mais IA generativa e agentes, isso deve mudar a forma como nosso trabalho é feito".

Curiosamente, após a repercussão negativa, a empresa recuou e passou a atribuir os cortes à redução de burocracia. No entanto, analistas acreditam que o verdadeiro motivo seja liberar recursos para investimentos em infraestrutura de IA, como data centers.

O caso da Accenture que chega ao absurdo…

Veja essa notícia que foi amplamente divulgada na imprensa e redes sociais em setembro de 2025.

Um cenário no mínimo, tenso… 11 mil pessoas demitidas e um discurso em tom de ameaça: "só permanece quem aprender inteligência artificial".

Apesar de todo o alarde, devido ao momento que estamos vivendo da hype da IA, para muitos a notícia chegou como algo que "faz parte do jogo”, uma vez que muitas outras empresas fizeram movimentos parecidos no mesmo período. Até aí tudo normal mas….

Veja essa notícia (que saiu apenas 3 dias antes 🤔)

Uma empresa que está demitindo 11 mil pessoas mundialmente com o argumento da produtividade alcançada com IA, na mesma semana está com um plano de contratar 12 mil na Índia? Estranho não?

Outros casos emblemáticos de demissões e IA

O Pinterest também entrou na lista, reduzindo cerca de 15% de sua força de trabalho com a justificativa de "realocar recursos para funções focadas em IA". Já a Hewlett-Packard (HP) anunciou até 6 mil cortes de empregos nos próximos anos, com o CEO Enrique Lores declarando em teleconferência: "Vemos uma oportunidade significativa de incorporar IA à HP".

Esses exemplos ilustram uma tendência preocupante: executivos utilizando a narrativa da inovação tecnológica para justificar decisões que podem ter motivações puramente financeiras.

O que é "AI-washing" e por que devemos nos preocupar?

O termo "AI-washing" ganhou força nos últimos anos para descrever práticas enganosas relacionadas à inteligência artificial. Inicialmente, o conceito se referia a empresas que alegavam usar IA quando, na verdade, não utilizavam. Hoje, o termo evoluiu para abranger companhias que superestimam o papel da IA em suas decisões estratégicas, especialmente demissões.

A Forrester Research, em relatório de janeiro, foi direta ao ponto: "Muitas empresas que anunciam demissões relacionadas à IA não têm aplicações de IA maduras e validadas prontas para ocupar essas funções, o que evidencia uma tendência de AI-washing — atribuir cortes motivados por razões financeiras à futura implementação de IA."

Por que empresas fazem AI-washing?

Segundo Molly Kinder, pesquisadora sênior da Brookings Institution especializada em IA e trabalho, essa estratégia permite que executivos sinalizem ao mercado: "Sou de ponta, adotei IA e encontrei economias. É uma mensagem muito amigável para investidores."

Em outras palavras, é mais palatável dizer "estamos inovando com IA" do que admitir "o negócio está em dificuldade".

A realidade por trás dos números: IA ainda não transformou radicalmente o mercado de trabalho

Peter Cappelli, professor da Wharton School, expressa ceticismo quanto às justificativas apresentadas: "As empresas estão dizendo: 'Estamos antecipando que vamos introduzir IA que vai assumir esses empregos', mas isso ainda não aconteceu. Esse é um motivo para ceticismo."

Um estudo recente do Yale Budget Lab, no qual Kinder trabalhou, chegou a uma conclusão reveladora: a inteligência artificial ainda não alterou de forma significativa o mercado de trabalho como um todo.

Demissões no setor de tecnologia: uma correção necessária

Empresas de tecnologia cortaram mais de 700 mil postos de trabalho globalmente desde 2022, segundo a plataforma Layoffs.fyi. No entanto, grande parte desses cortes representa uma correção após o excesso de contratações durante a pandemia — não necessariamente uma substituição direta por IA.

Como identificar se uma demissão é realmente por causa da IA

Para profissionais e observadores do mercado, alguns sinais podem indicar se as demissões são genuinamente relacionadas à IA ou se trata de AI-washing:

Indicadores de demissões legítimas por IA:

  • A empresa já possui sistemas de IA implementados e funcionando

  • Há documentação clara sobre quais processos foram automatizados

  • Investimentos significativos em infraestrutura de IA precedem os cortes

  • Treinamento de funcionários em novas ferramentas de IA está em andamento

Indicadores de AI-washing:

  • Anúncios vagos sobre "futuras implementações" de IA

  • Falta de evidências concretas de automação já em operação

  • Histórico de problemas financeiros ou queda de performance

  • Recuo ou mudança de narrativa após anúncio inicial

O futuro do trabalho: IA vai realmente substituir empregos?

Apesar do ceticismo quanto às justificativas atuais, é inegável que a inteligência artificial tem potencial para transformar o mercado de trabalho nos próximos anos. A questão não é se haverá impacto, mas quando e em que escala.

A verdade é que estamos em um momento de transição. Algumas funções certamente serão automatizadas, mas também surgirão novas oportunidades. O desafio está em preparar a força de trabalho para essa mudança de forma ética e transparente — não usando a IA como desculpa para decisões empresariais difíceis.

Transparência corporativa: o que realmente importa

Para trabalhadores e investidores, a transparência é fundamental. Empresas que realmente estão inovando com IA deveriam ser capazes de demonstrar claramente:

  • Quais processos estão sendo automatizados

  • Qual o cronograma real de implementação

  • Como estão apoiando funcionários afetados

  • Quais novos papéis estão sendo criados

Quando essas informações são vagas ou inexistentes, é razoável questionar se a narrativa da IA não está sendo utilizada apenas como cortina de fumaça para decisões motivadas por corte de custos ou reestruturação financeira.

Conclusão: entre a inovação real e o marketing conveniente

O debate sobre demissões atribuídas à IA nos coloca diante de uma questão essencial sobre ética corporativa e transparência. Enquanto a inteligência artificial certamente tem o potencial de transformar o mercado de trabalho, o momento atual parece caracterizado mais por AI-washing do que por uma revolução tecnológica genuína.

Para profissionais de dados e tecnologia, isso representa tanto um desafio quanto uma oportunidade. É crucial desenvolver pensamento crítico para distinguir implementações reais de IA de narrativas de marketing, além de se preparar para as mudanças que inevitavelmente virão — mas com base em fatos, não em especulações.

A verdadeira transformação do trabalho pela IA acontecerá, mas será um processo gradual, não um evento abrupto. E quando ela vier, esperamos que seja acompanhada de transparência, responsabilidade e genuíno compromisso com as pessoas afetadas — não apenas com os indicadores financeiros.

Pergunta para reflexão: Sua empresa está realmente implementando IA ou apenas surfando na onda da inovação? A resposta a essa pergunta pode fazer toda a diferença para seu futuro profissional.